Escola Profissional Vila Franca do Campo
Artigo, Escolas Profissionais

Ensino Profissional: o seu papel na formação/educação?

O ensino profissional tem sido alvo de muitos investimentos por parte do Governo, em particular nos Açores, pelo Governo Regional e pelo FSE (Fundo Social Europeu). Contudo, apesar de ter assumido um papel importante para a economia do País, em geral, ainda prevalece uma representação social negativa do ensino profissional na população em geral. Será esse tipo de ensino o parente pobre da formação e da Educação em Portugal? O ensino profissional pode ser visto de várias vertentes. 

Para as instâncias políticas, o ensino profissional é encarado como um mecanismo de diminuição das taxas de desemprego e da reentrada no mercado de trabalho, sobretudo da população adulta, cuja maior parte se encontra enquadrada nos desempregados de longa duração. O objetivo é o desenvolvimento das competências técnico-profissionais a adquirir/adquiridas, sendo por isso colocada em programas específicos de formação para adultos, promovidos, nesse caso, pelo Governo Regional dos Açores, através da Direção Regional do Emprego e Qualificação Profissional, órgão da Vice-Presidência do Governo, Emprego e Competitividade Empresarial. 

Na Região Autónoma dos Açores tem-se verificado um ligeiro aumento do interesse pelo ensino regular, uma vez que este último tem apresentado um excesso de oferta formativa, criando uma concorrência desleal com o ensino profissional. A redução do número de cursos disponíveis no ensino profissional, a partir de 2013/2014, referindo-nos à situação verificada na Região Autónoma dos Açores, acarreta, consequentemente, a abertura de cursos muito semelhantes de ano para ano e a redução drástica do número de vagas, o que cria um certo desajuste entre a oferta das escolas profissionais e a procura do mercado de trabalho. O ideal seria que a oferta formativa não fosse uma imposição, no que diz respeito ao número e tipologia de cursos, e consequentemente no número de vagas disponíveis, mas sim uma adequação às exigências do mercado de trabalho, não favorecendo apenas as escolas que se destacam pelo seu poder de atração e pela sua localização geográfica estratégica.

As escolas profissionais estão sujeitas a um conjunto de penalizações, caso não cumpram com os requisitos exigidos pelas instâncias superiores. O Fundo Social Europeu tem mantido o mesmo nível de formação, de ano para ano, através da manutenção do mesmo número de cursos a abrir no ensino profissional. Esta situação cria várias dificuldades financeiras às escolas profissionais, que, para evitarem constrangimentos na realização de pagamentos, se esforçam por atingir os valores esperados de sucesso escolar e de empregabilidade. Devido a essa situação, as escolas tentam manter uma boa gestão financeira ao longo dos anos, principalmente as que não são financiadas diretamente pelo Governo.

A outra perspetiva é a do setor empresarial, que “vê com muito bons olhos” o ensino profissional. O ensino profissional valoriza a integração, nos seus quadros e na sua bolsa de formadores, de profissionais altamente qualificados, vocacionados para as áreas em que dão formação, que partilham o seu know How, mostrando uma visão do mercado de trabalho muito mais real do que aquela que passa no ensino regular. Os formandos dos cursos profissionais ficam, assim, preparados para uma profissão em concreto e ganham, durante a formação, determinadas competências transversais que são muito úteis para o mundo empresarial, como a apresentação do projeto, de onde surgem potenciais ideias de negócio, e o contacto com os clientes, através da realização da Formação em Contexto Real de Trabalho, a partir da qual se abrem portas para a entrada mais facilitada no mercado de trabalho. 

Nestes estágios, para além dos formandos das escolas profissionais ficarem a saber-fazer na sua área de estudo também ficam a conhecer como se estabelecem as relações interpessoais no mercado de trabalho e quais as regras empresariais que lhe serão impostas no futuro. Assim, as escolas profissionais, através da celebração de protocolos com as empresas locais, seguras e credíveis, garantem a realização dos estágios profissionais e/ou uma eventual contratação do formando no final do curso, disponibilizando os seus meios para acompanhar esses formandos, mesmo após estes terminarem a sua formação. Assim, os formandos das escolas profissionais são cada vez mais procurados pelas grandes empresas nacionais e conseguem colocação no mercado de trabalho praticamente a seguir ao término da sua formação.

Por fim, Por parte da população em geral, ainda persiste um pouco a ideia de que o ensino profissional é direcionado sobretudo para os formandos que não têm bom rendimento escolar, o que não se comprova atualmente. Este é um ensino de qualidade e exigente, que tem duas missões importantes, para além de permitir o acesso a uma determinada profissão, também permite a conclusão do ensino secundário e o acesso a uma formação no ensino superior, sendo que alguns estabelecimentos de ensino superior reservam um determinado número de vagas para os formandos desse ensino. Ao terminarem a sua formação, os formandos do ensino profissional estão mais aptos do que aqueles que enveredaram pela via do ensino regular para entrarem no mercado de trabalho. 

Importante será ressalvar que, independentemente das razões que levam os formandos a frequentarem um curso profissional, é necessário compreender que o objetivo de todos estes é garantir o seu futuro, por isso terão que estar muito motivados para continuarem o seu percurso de aprendizagem e devem ser criadas condições por todos os intervenientes para que isso realmente aconteça da melhor forma, procurando a valorização pessoal, social e profissional desses jovens.

 

Carla Botelho Vieira
Coordenadora do GOIAP da Escola Profissional de Vila Franca do Campo

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