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Ensino Profissional: compreender, experimentar, partilhar, crescer…

Uma das vias de progressão escolar dá pelo nome de ensino profissional, o caminho mais promissor do desenvolvimento do ensino em Portugal e do desenvolvimento económico do País.

Digamos que o ensino profissional será talvez o modelo de ensino mais antigo, mais natural e congruente e mais determinante de todas as civilizações em qualquer tempo e em qualquer lugar, anterior mesmo à escola formal.

As sociedades mais evoluídas, como por exemplo as do norte da Europa, verdadeiramente nunca prescindiram do ensino profissional e só motivações ideológicas seriam capazes de desculpar a sua menorização nas sociedades mais pobres e desacreditadas do sul da Europa. Foi o que aconteceu em Portugal com a revolução dos cravos. Argumentando com a estigmatização social dos alunos que optassem por uma via profissionalizante ou pelos cursos ministrados nas escolas comerciais e industriais, os ideólogos de abril institucionalizaram o ensino unificado. Complementarmente, no ensino secundário foram criadas áreas de progressão académica assentes nas disciplinas de formação geral e científica, eminentemente teóricas, a fomentar o tipo de ensino de cátedra, tanto ao gosto da intelectualidade docente, sobretudo virada para a preservação dos postos de trabalho. O resultado foi o aumento brutal do abandono escolar e das retenções – digamos claramente, das reprovações dos alunos.

Mais uma vez se confundia orientação vocacional com escolha vocacional, quando esta não pode ser reduzir àquela. A orientação vocacional é um processo de desenvolvimento pessoal, social e profissional

Aquilo a que passou chamar-se orientação vocacional, que na maioria dos países era já a diversificação dos saberes e experiências com acesso a um maior conhecimento real dos conteúdos e dos exercícios  profissionais, mais não era do que a escolha de uma daquelas vias disponíveis nas escolas secundárias.

Mais uma vez se confundia orientação vocacional com escolha vocacional, quando esta não pode ser reduzir àquela. A orientação vocacional é um processo de desenvolvimento pessoal, social e profissional. Não se compadece com uma escolha de curso ou profissão, tomada num determinado momento do percurso do aluno, pretensamente para acorrentar o devir a uma amarra passada.

A verdadeira orientação vocacional deve acontecer todos os dias, assente em novas experiências, novos conhecimentos, novas perspectivas do presente e do futuro incerto, variante e multidimensional.

É por isso que o percurso pela via dos cursos  profissionais é mais promissor e mais respeitador do crescimento e do desenvolvimento pessoal que naturalmente acontece em múltiplas dimensões: pessoal, social, cognitiva, emocional e no plano dos valores.

Aos quinze, dezasseis, dezassete anos de idade, a maioria ou pelo menos uma fracção muito significativa dos jovens não sabe, não faz ideia do que em que consiste o trabalho dos próprios pais, salvo se eles exercerem actividades profissionais no espetro das relações assistenciais e relacionais do próprio filho, como a medicina ou o ensino, por exemplo. Muitos não sabem mesmo em que coisa trabalham os pais e, quando muito, mencionam o nome de uma entidade ou empresa – “o meu pai trabalha na firma X, a minha mãe é engenheira da empresa Y”. Do conteúdo funcional do trabalho dos pais, não sabem mais nada ou sabem muito pouco.

Os cursos profissionais colocam o aluno no centro das aprendizagens e da aquisição de competências cognitivas, sociais, relacionais e emocionais. Seja nos Laboratórios de Aprendizagem, no exercício de práticas simuladas ou em contexto real de trabalho, o jovem exercita, experiencia, partilha, compreende e toma decisões continuamente,

Os cursos profissionais colocam o aluno no centro das aprendizagens e da aquisição de competências cognitivas, sociais, relacionais e emocionais. Seja nos Laboratórios de Aprendizagem, no exercício de práticas simuladas ou em contexto real de trabalho, o jovem exercita, experiencia, partilha, compreende e toma decisões continuamente, seja em relação ao trabalho que realiza, às aprendizagens que adquire, seja em relação àquilo que lhe interessa, que o motiva, que o entusiasma e o faz aderir voluntária e conscientemente.

Por ter consciência deste facto, o ministro Augusto Seabra pretendeu restabelecer o ensino profissional em 1982, enviando mesmo psicólogos para acompanhar os alunos nos processos de desenvolvimento, incluindo naturalmente o desenvolvimento vocacional. A reacção das escolas, dos professores e dos próprios pais dos alunos não correspondeu como seria desejável, uma vez que já se tinha inoculado a ideia perversa de que o ensino profissional seria para os alunos mais destituídos de capacidades cognitivas para entender a profundidade, o alcance  e a magna importância das grandes teorias científicas, desde Aristóteles a Arquimedes, de Galileu a Newton, de Lavoisier  a Einstein, de Max Weber a Passeron. Por muito menos, os jacobinos franceses já tinham cortado a cabeça a Robespierre.

Foi preciso recomeçar tudo de novo em 1989. Desta vez pela mão do ministro Roberto Carneiro, assessorado por um técnico superior de educação, o Doutor Joaquim e Azevedo e já não nas escolas públicas mas em escolas de direito privado, associações  profissionais ou sob responsabilidade municipal.

Este modelo de ensino lança os seus alicerces na partilha de experiências, na cooperação entre os alunos, na discussão dos resultados desejáveis e os obtidos, na inter-relação com o quotidiano da vida  real; permite ao jovem dar significado às suas aprendizagens – porquê?, para quê?, com quem?, com quais recursos? – e perceber a importância da inter-relação com os demais actores e vectores – como numa orquestra, mesmo tocando todos coisas diferentes, os conteúdos intersectam-se e interconectam-se para criar a sinfonia.

É neste tipo de ensino – e arrisco-me a dizer, só neste tipo de ensino – ´que faz pleno sentido falar de ensino individualizado, ensino de projecto , aprendizagem cooperativa,  peer instruction. É neste tipo de ensino que o jovem encontra o gosto de aprender, de aprender com todos e em todas as circunstâncias da vida, seja no êxito como no fracasso. Aprender é crescer, tornar-se autónomo, respeitar as suas próprias singularidades e as dos demais que estão à sua volta. Agora faz sentido fazer escolhas e responsabilizar-se por elas. Aprender afinal é a própria vida e não há como enganar-nos a nós próprios. Faz todo o sentido falar de aprendizagem ao longo da vida e a escola é só um ponto de partida, que ocorrerá com ou sem ela, com ou sem professores, embora uma e outros possam ser muito facilitadores do processo. Afinal, não é mesmo verdade que a verdadeira escola é a vida? Que muitos aprenderam muito sem nunca terem ido à escola e outros não aprenderam nada, mesmo tendo-a frequentado em abundância?

António Vinhal

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